Co-Existo

“Frito

Em minhas entranhas

Co-habito

Fujo

Por estradas que não existem

Luto

 

Um momento, poucas palavras

Em minhas cruzadas, nenhuma delas se encaixa

Devolvo

Todo presente e cada poente em caixas

 

Não faço o certo

Me confundo sobre o que é incorreto

Não é como se eu pudesse divagar

E dentro da música poder me ocultar

 

Eu apenas frito

Num quarto de fundos onde não há gritos

 

Numa pimenteira que se rasga e se engasga

Co-habito”

A identidade das pílulas

“Eu sabia a falsa identidade

Mas agora só lembro aquela de verdade

Dobrada num cartão em cima de mim

Eu sabia quando eu tinha a idade

Agora só sei que ficou tarde

Tarde demais pra descobrir

Eu sabia até onde se escondiam os panos

E subia por esconderijos junto aos canos

Mas em nada pude interferir

Os percevejos e as borboletas

Fechem a entrada,

Vêm a fada e o capeta

Me dê meus comprimidos pra dormir.”

Buraco

“Meu Buraco

Quê?

Me engoliu todo

Engoliu o nosso trato

E as línguas que rabiscaram os contratos

Estão secas agora

Viraram fatos

Mas o Buraco

Quê?

Buraco

Você não queria um buraco

Você talvez não saiba o tamanho do fardo

 

Eu não escovei os dentes

Hoje meus olhos estão quentes

Meus olhos não têm buracos

Meus braços estão fracos

 

Até onde pode ser falso?

Um suspiro, um ombro, um calço.

 

Até onde me alcançam os pêndulos?

O analista diz que eu procuro a plenitude em cada passo, cada movimento

Eu digo… passa vida

Dia após dia

Que esta pira não esfria

Tão pouco a tortura desmia

Tão mais o sol nasce e desafia

 

Deixe-me beber desse copo

O risco que mais gosto

Fazer doer o que ainda não é tóxico”

 

 

 

 

 

 

A parte de mim que me observa

“As sombras em meu coração se mechem

E por dias, emudecem

Se revelam em sonhos disfarçados de pesadelos

Meu coração, minha luz, o caminho, meus erros.

 

Sua voz, atitudes em presentes

Dentro de mim um espaço oco, às vezes repelente

Dentes por dentro dos dentes

Ausência, o caminhar, tudo paralisa de repente

 

Tantas vozes, nem que eu quisesse poderia respondê-las

À noite que eu evito, erguem-se todos os murmúrios presentes

 

Eu tenho conseguido detê-la

Me pergunto se será pra sempre

 

Esse oco, é uma desconfiança que não desvanesce

Tenho dúvidas se mesmo agora elas crescem

Não confio na própria pele que me trai

Meus olhos estão em lugares pra onde a minha alma não vai

E na escuridão, no silêncio, dentro de mim se sobrefaz

Um medo inoportuno

De tudo que mais humana me faz

Esse medo, que é da minha própria indulgência

Calmantes, frios,

Sinto até gelar por um instante

 

A parte de mim que me observa

Tem raiva, olhos quentes,não me regenera

Vou-me secretamente transformando

Quantos mais cigarros vou fumando

E as dúvidas

se multiplicando

se manchando.

Uma Ironia Mal Colocada

“Acordo em peças

partes do quebra cabeças embaixo da minha cama

Outras partes quebradas por aí em chamas

 

Depois do café

Quando tento esquentar meus pés

No espelho vejo parte do que és

 

Sei que é impossível saber tudo

Vivemos o eterno luto

Da parte morta que habita em nós mesmos

 

E como uma ironia mal colocada

Sem tal tristeza não veríamos a beleza que nos é roubada

Ou colocada

Todas as manhãs

Em todas as peças

Cigarros, pães e mortadelas

 

A beleza está no mesmo avesso

Na carta o mesmo endereço

E sem o vulto não haveria a luz

Só pelo fogo você vislumbra seu capuz”